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O diabo vive nas águas tranquilas

Por Luiz Augusto Erthal


Há um ditado russo que diz: o diabo vive nas águas tranquilas [Дьявол обитает в спокойных водах]. Profundas e misteriosas são as águas tranquilas, inescrutáveis àqueles que pairam em sua superfície.

Assim também é a Groenlândia, a enorme ilha do desejo de Donald Trump, que está disposto a tomá-la, passando mais uma vez por cima do direito internacional, sob o argumento de sua importância estratégica para defesa dos Estados Unidos frente à suposta ocupação marítima da região por russos e chineses, segundo a lógica autoritária do mais novo fuhrer lunático produzido pelo capitalismo.


Não é de hoje que os russos são os senhores do Ártico, cuja calota dominam, soberanos, em mais de 50 por cento do seu perímetro, onde operam pelo menos 20 bases militares, além da primeira usina nuclear flutuante, a Akademik Lomonosov, responsável por suprir de energia o extremo norte do país.



O segundo tiro

As águas geladas da região são ocupadas pela poderosa Frota do Norte russa, integrada pela maior esquadra de submarinos e quebra-gelos nucleares do planeta. São eles os defensores e garantidores do fluxo naval na nova Rota Marítima do Norte, compartilhada em parceria estratégica com a China, onde é denominada de Rota da Seda do Norte, um novo caminho comercial que, favorecido pelo degelo do Ártico e pelos desbravadores quebra-gelos nucleares russos, Pequim espera reduzir em cerca de 30 por cento o percurso das viagens de seus porta-contêineres até o Ocidente.


Por essas águas já navega também o mais extraordinário leviatã moderno - o novíssimo e poderosíssimo submarino nuclear Khabarovsk, capaz de transportar seis ou mais mísseis Poseidon, um torpedo nuclear monstruoso, com comprimento estimado entre 16 e 24 metros, diâmetro entre 1,5 e 2 metros e peso próximo de 100 toneladas. Sua propulsão é assegurada por um pequeno reator nuclear a bordo, o que permite operação prolongada e autonomia quase ilimitada, em teoria.


Enquanto Donald Trump se proclama como o novo conquistador do território gelado da Groenlândia, centenas de metros abaixo do gelo navegam nas águas profundas e tranquilas as mais poderosas armas de retaliação já criadas, capazes de lançar mísseis subaquáticos, transportando poderosas ogivas nucleares, com longo alcance e menor possibilidade de detecção. Lá, nas águas tranquilas, onde, segundo o ditado russo, vive o diabo, submarinos nucleares como o Khabarovsk passeiam praticamente incólumes, encobertos e protegidos pela espessa camada de gelo que Donald Trump tanto deseja, prontos a darem o segundo e último tiro em uma hipotética guerra nuclear.


O primeiro tiro

Mas Trump parece mais preocupado com o primeiro tiro e, por isso, necessita da Groenlândia para montar o seu “Domo de Ouro”, capaz, em seus devaneios, de interceptar e anular a irrefutável - e aparentemente insuperável - vantagem dos mísseis de cruzeiro hipersônicos russos, como o Oreshnik, já em ação na Ucrânia.


A panaceia, porém, depende não só das bases militares de mísseis defensivos - e, por que não, de ataque também - que os arrogantes imperialistas norte-americanos pretendem instalar sobre o gelo da Groenlândia, mas de uma complexa rede de satélites, aos quais caberia monitorar o Polo Norte, por onde, acreditam os ingênuos caubóis do Apocalipse, voariam os mísseis balísticos intercontinentais da Rússia no que seria a rota mais curta para atingir o território dos Estados Unidos.


O sistema de defesa dos sonhos de Trump, no entanto, se revela tanto impraticável quanto inócuo.

Uma coisa são satélites que orbitam e se movem na mesma velocidade da terra para transmitir sinais de acontecimentos estáticos, como, por exemplo, uma corrida de Fórmula 1. Por mais velozes que sejam os carros, eles se movem dentro de um circuito fechado com apenas algumas centenas de metros quadrados e não escapariam da alça de mira de um único satélite.


Diferente, contudo, seria a tarefa de monitorar, entre zilhões de coordenadas inesperadas, a atuação de mísseis hipersônicos, voando a alucinantes velocidades de 12, 15, 18 mil quilômetros por hora, surgindo sabe-se lá de onde e quando, com a missão de coordenar e acionar as armas de contra-medida para conseguir interceptar, com fabulosa precisão, alvos meteóricos como esses.


“Essa é uma enorme ilusão de Trump e seu governo criminoso”, define o Dr. Ted Postol, professor emérito do MIT e um dos maiores especialistas mundiais em armas nucleares. Falando na sexta-feira, 23 de janeiro, durante a 138ª reunião da Coalizão Internacional pela Paz, presidida por Helga Zepp-LaRouche, fundadora do Instituto Schiller, ele disse que tal sistema, para funcionar com eficiência, custaria de 10 a 15 trilhões de dólares para ser implementado, considerando a necessidade de 120 mil satélites integrados.


Segundo Ted Postol, seriam precisos 1.200 satélites para rastrear eficientemente apenas um dos mísseis balísticos hipersônicos intercontinentais da Rússia. Como, porém, a capacidade de ataque russa não seria de apenas um míssel, mas de pelo menos 100 armas balísticas intercontinentais, o “Domo de Ouro” de Trump necessitaria de uma rede de uns 120 mil satélites, algo que dificilmente os Estados Unidos teriam recursos suficientes para implementar, além de terem de contar com a improvável docilidade das demais potências atômicas, que, na ingenuidade trumpista, assistiriam imóveis à construção desse cogumelo cósmico.


Um só tiro

O mais irônico e revelador da insanidade estratégica de Donald Trump é que todo esse plano, baseado na premissa de um ataque russo pelo Polo Norte, pode ser demolido em um único tiro da mais recente arma revelada pela Rússia: o míssil de cruzeiro Burevestnik, movido a propulsão nuclear, projetado para ter alcance virtualmente ilimitado, por carregar em sua estrutura, além de possíveis ogivas atômicas, uma mini usina nuclear.


Isso significa que, enquanto Trump humilha e zomba dos seus vassalos europeus, colocando em risco a própria existência da OTAN, para ter o domínio sobre a Groenlândia, sob o argumento de ser estrategicamente imprescindível para a defesa do Ocidente coletivo, o poder de ataque russo se mostra capaz de contornar todas as defesas possíveis para atingir os alvos que desejar. O Burevestnik poderia, se assim quiserem os russos, traçar uma rota pela Antártica, por exemplo, contornando o globo terrestre através da sua maior circunferência, com a capacidade de voar abaixo das cotas de leitura dos radares, e atingir qualquer parte do mundo que desejar em poucas horas.


Dentro do melhor estilo russo, Vladimir Putin assiste impassível à desenvoltura geopolítica de Donald Trump, como um orangotango dentro de uma loja de louças, enquanto trabalha nas duas frentes do planejamento russo de longo prazo: consolidar a superioridade russa de dissuasão e enfrentamento em um cenário de possível guerra nuclear, ao passo que investe em incubadoras do novo mundo multipolar, como o BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai, e assiste à inexorável queda do império norte-americano e ao fim da era colonial dos últimos 500 anos.

 
 
 
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Os conceitos emitidos nas matérias assinadas são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente a opinião do jornal. As colaborações, eventuais ou regulares, são feitas em caráter voluntário e aceitas pelo jornal sem qualquer compromisso trabalhista. © 2016 Mídia Express Comunicação.

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