Longa 'Novembro' leva Niterói de volta às telas

Atualizado: 13 de ago. de 2021

Por Mehane Albuquerque


Retratada nas comédias de um de seus moradores mais ilustres, o saudoso ator e diretor Paulo Gustavo, Niterói agora é cenário de um filme ainda inédito, produzido por profissionais da própria cidade, e que foi selecionado para o Festival de Jaraguá do Sul (de 27 a 30/9), em Santa Catarina. Novembro, longa-metragem de estreia da diretora e atriz Railane Borges, que divide a direção com o documentarista e fotógrafo Matías Palma, é baseado no livro Solidão e Destino, do escritor Sandro Araújo, que também é o ator principal. O evento de estreia para convidados será na cidade, no dia 14 de setembro.

Divulgação

Com roteiro adaptado por Railane e Matías, Novembro foi rodado no mês homônimo em 2019, durante 29 dias, com uma equipe de 40 pessoas se revezando no set de gravação. É uma produção totalmente independente, que contou apenas com verba doada por amigos que acreditaram no projeto, e ainda 'emprestaram' as locações. Apesar disso, a diretora ressalta que não se trata de um filme improvisado, dentro daquele espírito glauberiano de "uma ideia na cabeça e uma câmera na mão'.


"Os custos de produção foram limitados, mas pagamos os salários de toda a equipe, contratamos 'catering' e alugamos alguns equipamentos extras, como uma grua. Tudo milimetricamente planejado", explica.


A direção de fotografia ficou a cargo do co-diretor do filme Matías Palma — documentarista, ator e fotógrafo experiente — que captou com maestria nas imagens o clima tenso e, ao mesmo tempo, delicado que permeia a história.


Veja um trecho do filme:


Machismo e sensibilidade


Julio, um funcionário público de meia-idade, antisocial e introspectivo — esquisito, como define o ator Sandro Araújo — sofreu um trauma amoroso: foi abandonado pela namorada. Com dificuldade de se relacionar novamente, seu grande problema é não saber lidar com a própria sensibilidade, agravando um conflito interno que o impede de expressar afeto.

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"A sensibilidade masculina é tabu em uma sociedade rígida e patriarcal como a nossa. No livro, eu abordo esse conflito de modo mais árido. Já o filme é mais poético, mais intenso, sem deixar de lado os traços que definem a personalidade do protagonista, como o machismo e o falso moralismo", conta Sandro.


Para a dupla de roteiristas de Novembro, a transposição do texto escrito para as telas foi um grande desafio. Especialmente por se tratar de um conflito interno, psicológico, e não de uma trama de ação.

A diretora Railane Borges / Divulgação

"Foi mais difícil para mim porque sou mulher, e a história é centrada em um personagem masculino. Ele cresceu numa sociedade que exige masculinidade, mas é um homem sensível. Não sabe se colocar nos relacionamentos amorosos, não sabe caminhar no mundo. A construção desse universo subjetivo exigiu algumas mudanças. No filme, o papel da mãe do protagonista — viúva e ex-hippie — é mais destacado, por exemplo. E o relacionamento dele com as mulheres é tratado com mais profundidade do que no livro", revela a diretora.


O longa tem no elenco as atrizes Lara Lazaretti e Yasmin Patacho, e o ator Douglas Cordeiro. A trilha sonora foi criada especialmente por Gabriel Calderón, e inclui, ainda, uma faixa do cantor Odair José e outra do compositor e cantor Rubel. Raylane e Matías também assinam a edição e a finalização de Novembro, que ganhou esse nome em homenagem ao mês de realização, repleto de imprevistos. Um deles foi o mau tempo, que durou praticamente o período inteiro de filmagem.


"Chovia e ventava sem parar. Estávamos esperando gravar em dias de sol e céu azul. Mas foi o melhor 'infortúnio' que poderia nos ocorrer. Contribuiu muito para a atmosfera que queríamos criar", diz Railane.


Essa não foi a única surpresa. A diretora engravidou logo no início das gravações, já sendo mãe de um menino pequeno. Ela e Sandro, que é ex-vereador de Niterói, são casados e sócios na produtora. No início de 2020 veio a pandemia e o fechamento das salas de cinema adiou os planos de lançamento e de exibição em circuito naquele ano. Na impossibilidade lançar o filme para o grande público até que a crise sanitária seja contolada, os produtores planejam inscrever Novembro em outros festivais no Brasil e no exterior.

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Riscos e acertos


Railane Borges e Matías Palma se conheceram na faculdade de cinema e são amigos há mais de dez anos. Ela é atriz desde os sete de idade e participou de vários trabalhos em teatro, cinema e tevê, entre eles o filme O homem do ano, de José Henrique Fonseca e a novela infanto-juvenil Bambuluá, da TV Globo. Teve passagens por Malhação, atuou na série A diarista e na adolescência foi apresentadora do canal Discovery Kids.


Já Matías é chileno radicado no Brasil. Trabalhou como ator, fotógrafo e é diretor do premiado documentário "Habia una vez un pueblo – La historia de Caimanes", de 2021.


Para a co-diretora, o sonho de produzir um longa de ficção era antigo. Incentivados por Sandro, ela e o colega de faculdade encamparam a ideia de adaptar o livro Solidão e Destino para as telas. E depois de escreverem juntos o roteiro, convidaram o próprio escritor e criador de Julio para interpretar o papel do personagem principal. Segundo ela, foi um risco que resolveram assumir, já que Sandro não tem formação de ator e não houve tempo para uma preparação. Porém, mais uma vez, o resultado surpreendeu.

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Railane conta que quando decidiram montar uma produtora em Niterói, onde moram, e fazer um filme independente totalmente rodado na cidade, surgiram incertezas em relação à captação de recursos, diante do atual desmonte do cinema nacional promovido pelo governo, e da falta de mecanismos de financiamento e incentivo à cultura no país. Resolveram, mesmo assim, tentar levantar o orçamento por caminhos não convencionais. E deu certo.


"Cinema é arte do coletivo. Um balé que tem uma coreografia própria, em que cada passo contribui para a simetria perfeita da dança. Sem a doação dos amigos e o profissionalismo da equipe nós não teríamos conseguido. Não estamos esperando retorno financeiro, mas queremos que o público assista. O filme é lindo! Se tornou mais um filho, um patrimônio familiar-emocional. Tem muito amor envolvido nesse trabalho. E apesar de alguns acontecimentos inesperados, como a chuva incessante e os enjoos do início da gravidez durante a edição, Novembro superou todas as expectativas", avalia.







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